As fotos de grávidos

 Outro dia, a tua avó paterna saiu com uma ideia, tirada não sei de onde, de que havíamos feito um "book" fotográfico de grávidos. Uma ideia bem estapafúrdia, considerando eu e teu pai. Disse a ela não que havíamos feito, ela quis saber o porquê, então expliquei que não era algo haver com nossas personalidades.

O argumento dela é que as fotos de grávidos seriam uma linda recordação que guardaríamos para sempre. Bom, eu percebo que, talvez, ela tenha querido fazer fotos assim, mas não pôde no tempo dela, fosse porque não existia como um produto que é hoje, fosse por falta de dinheiro. Mas eu gostaria de te dizer que fotos de pais grávidos não são necessariamente uma recordação. Essas fotos são lindas, não há dúvida. O casal é levado para um local lindo (praia, parque, praça bonita, até em casa, etc) e lá um fotógrafo fica dizendo como o casal deve se comportar: "agora se abracem", "agora um beijinho", "agora coloca a mão na barriga dela", "agora olhem um para o outro"... uma chatice sem fim. Uma chatice que, pelo menos pra mim, não me parece necessariamente como uma recordação, pois não há espontaneidade. Trata-se apenas de fotos de barriga e de poses, muito bonitas, mas não é uma recordação. 

Para mim e, para nós, pouco importam esse tipo de fotos. Nós vamos recordar sempre das coisas originais. Vou sempre me lembrar dessa gravidez e de como passei mal no início, mas vinguei no final, de todas as vezes semanais em que íamos nadar eu e tu e, enquanto eu dava minhas braçadas, tu girava dentro da barriga, de todas as vezes em que tu te mexeu mais ou menos, de quando tu estava dormindo e eu achei o teu pulso com a minha mão, chamei teu pai para ver também, ele veio, ficou escandalizado com essa possibilidade, eu ri, e ele me xingou que eu não poderia rir porque iria te acordar. Vou sempre lembrar quando tu corcoveava na minha barriga e teu pai, certo dia, perguntou se era normal e me disse para ligar para o médico, muito assustado. Vou lembrar de quando eu caminhei 6 km e quase morri de dor nas costas porque tu já estava com quase 2 kg e eu nem me dei conta. Vou lembrar também de todas as vezes em que eu já tinha mais de 8 meses de grávida e esquecia que estava grávida! Então eu batia com a barriga no volante ou tentava passar por passagens estreitas por onde nós dois não passaríamos jamais. Essas são as lembranças que importam, as lembranças de quantas coisas boas e ruins nos aconteceram ao longo dos 9 meses, a lembrança do teu movimento suave na barriga quando fomos ao concerto de músicas clássicas do rock do Candlelight na semana passada. Claramente, acostumado com um bom heavy metal, tu deveria estar achando bom. E eu sei disso porque uma vez, aos 7 meses, fui com minhas amigas num bar onde a música era muito alta e de gosto duvidoso e tu te mexia vigorosamente, claramente dizendo que não estava bom. 

Todas essas lembranças não cabem em nenhuma foto, ainda que fotos tenhamos várias, pois faz 9 meses em que tu está presente, nas tuas mais diversas fases, em todas as fotos que teu pai tirou de mim ou que tiramos de nós dois. 

Dentro de aproximadamente 2 semanas tu estará do lado de cá. Não falta nada agora. Quando tu chegar, tiraremos muitas e muitas fotos, os três, ao longo de todos os anos, só que dessa vez, será recordação real de momentos que todos nós três estaremos vivendo e poderemos sentir. Nessas fotos, tu vai aparecer, agora sim, na tua melhor e mais importante fase: a fase em que todos podem realmente te ver e te ouvir. 

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