O teu pai

 Uma amiga outro dia me ligou para me dar os parabéns pela tua chegada. Conversa vai, conversa vem, essa amiga muito querida que já é mãe de uma menina de 5 anos me alertou para o fato de que "o amor que falam não vem imediatamente. É difícil amar quando não há interação ou essa é pouca, mas que com o passar do tempo ele virá, e será arrebatador". Acredito piamente nisso. Primeiro porque nunca foi meu sonho ser mãe. Segundo, porque levei um choque ao descobrir que estava grávida. Terceiro, porque nunca me acostumei a estar grávida. Além do mais, era difícil pra mim imaginar amar tanto qualquer coisa e qualquer pessoa, ainda mais alguém que eu nunca tinha visto. 

Mas tem alguém que te amou muito desde aquele sábado de manhã em que eu sentei no sofá com ele e disse que tinha uma notícia que não sabia ainda ser boa ou ruim: eu estava grávida. Teu pai sorriu nessa hora. Teu pai já te amou ali. E dali pra frente, se emocionando contida e discretamente (como haveria de ser diferente?) em cada ultrassom, em cada sábado de manhã que levantava às 6h45 para ir comigo coletar sangue no hospital e em todas as preocupações que invadiram a vida dele nesse momento. 

Como nós ficaríamos sozinhos em casa, eu e tu, na licença maternidade? Onde tu dormiria, como seria teu quarto, e o mais importante de tudo: como seria o teu nome se tu fosse menino? Essa, inclusive, uma história interessante, pois até uma semana antes de tu nascer, não tínhamos um nome masculino. Essa é uma escolha difícil e nós queríamos que fosse um nome perfeito, pois seria o teu nome. Bruno foi o que ele escolheu numa tarde ensolarada de domingo enquanto íamos caminhar no parque marinha. 

O teu pai já te amava tanto que passou firme por todas as etapas do teu nascimento, que não foi um nascimento fácil. Ele chorou muito de contentamento e felicidade quando o médico te tirou da minha barriga e esqueceu que ele passa mal com sangue, se levantou e me viu toda aberta na mesa cirúrgica para poder te ver. Em todos esses 16 anos, eu nunca vi teu pai tão emocionado. O dia em que tu nasceu e a hora em que tu nasceu foram os momentos mais felizes da vida dele até aqui. 

O teu pai se transformou ali. Teve medo de te pegar na primeira hora, mas na terceira, já estava contigo no colo na barriga dele. Ele nos cuidou como nenhuma enfermeira poderia cuidar. Foi ele quem trocou a tua fralda a primeira vez, que te pegou no berço quando tu chorou, que zelou pelo teu bem estar todas as primeiras noites. 

O teu pai é praticamente a única pessoa que te dá banho e os momentos de vocês são muito divertidos. Quando tu está dormindo, ele fala "tão bonitinho, todo peludinho" e te imita. E fica triste e inseguro quando tu chora sem sabermos o motivo. Nessas horas, ele senta na bola de pilates e canta uma música para ti em que "a bola é minha amiga, ela não é minha inimiga. A bola é legal, ela é sensacional". Ele também fica inseguro toda a vez com a água do banho (socorro!) e tenta te animar fingindo ser um robô que "não é programado para se importar com a criança". 

O teu pai foi o primeiro melhor amicíssimo que tu teve, que te apresentou o Marsupilami e que quer te apresentar uns desenhos japoneses horríveis dos anos 80. Tenha paciência com ele, o amor é muito grande e ele sempre vai ter passado menos tempo contigo do que eu, mas sempre ele vai curtir aqueles 15 minutos antes de sair ou ao chegar em casa como se fossem os melhores 15 minutos da vida dele. Sempre. E sempre vai querer te olhar acordar: "Eu quero ver!".



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